O blogue da Atlântico aproveita o dia da revolução de Abril, para fazer a sua própria. Mas, como sempre fomos pela política dos pequenos passos, mudamos devagarinho e os primeiros dias serão de experiência.
Acabei de ver um cartaz - branco, preto e vermelho de sangue, género capa da Colecção Vampiro - anunciando um "colóquio internacional", promovido por um Instituto de Psicologia da Universidade do Minho, subordinado ao tema "Amor, Sexo e Crime". Assim mesmo. Ora eis a Universidade pública a fazer bom trabalho! É claramente por aqui que passa o diálogo da Universidade com a sociedade.
1. Na índia, os laboratórios trabalham 24 sobre 24 horas; sem horário de trabalho; cada um faz o seu horário.
2. Os indianos recusam trabalhar na Europa porque tudo é demasiado lento e preguiçoso.
3. A classe média indiana cresce 2 austrálias por ano (30/40 milhões).
4. Em França, fala-se de grandeza como se ainda estivéssemos no séc. XVIII. Em Portugal, fala-se na reforma do Zé que toda a gente sabe que não vai ser paga quando o Zé chegar aos 70.
O facto de se terem registado 85% de votos nas eleições francesas não é um sinal de vitalidade democrática. Mas de desespero. Só no Burundi e em Cuba é que se atinge 85% dos votos - e não são livremente expressos. Esta percentagem não é de uma democracia consolidada. O problema é que o regime nunca se consolida em França. Tudo depende do ego e da putativa "grandeur", coisa que nunca ninguém viu mas que fica bem dizer em francês.
[Henrique Raposo, na clandestinidade, via email, com edição PPM]
Fazer um golpe de estado para acabar com uma guerra estúpida de um regime autoritário é das melhores coisas que se poderia fazer. Ainda hoje, não percebo porque razão tiveram de inventar a tal de "legimidade" na revolução - talvez para se apropriarem da legitimidade e do regime. Acabar com uma guerra já é legitimidade de sobra. Por isso, concordo: 25 de Abril sempre. E 25 de Novembro, sempre. Não ao autoritarismo, não ao totalitarismo.
Amanhã - como todos os anos – estarei na Av. da Liberdade a comemorar o 25 de Abril de 1974. Comemoro mais que a data. Relembro a mais profunda alegria que se instalou na casa dos meus pais nesse dia, do meu pai a berrar o “Grândola Vila Morena”, do choro convulsivo da Tia Isabel - a quem há poucos meses atrás a Pide tinha vandalizado a casa, da minha mãe a rezar pelos soldados e, sobretudo, do telefonema do tio José António – exilado em Argel. Lembro-me de muitos momentos felizes passados em casa dos meus pais mas não me recordo de tanta alegria e, mais que tudo, de tanta esperança. Vou à Av. da Liberdade com a minha mulher e os meus filhos para me lembrar e lhes ensinar, que há momentos – poucos, porém – que merecem ser vividos de forma intensa e nos dão a sensação que todos os sonhos podem ser realidade e todas as promessas podem ser cumpridas. É por essas e por outras que este cidadão de direita, feroz defensor da economia de mercado, crente nesse fantástico sistema que é o Capitalismo, defensor da liberdade individual sobre a igualdade, crítico do chamado Estado Social, tem muito orgulho em dizer: 25 de Abril sempre!
Capítulo I - onde se narra o passeio pelo Parc Guell e onde se fala de uma estranha inscrição na parede que serve de mote ao nosso herói para ridicularizar o conjunto dos turistas portugueses, no qual ele desafortunadamente e contra a sua expressa vontade se inclui.
Este Sábado, ao passear pelo Parc Guell, li uma inscrição na parede de uma casa ocupada. Estava escrita em inglês e eu, à guisa de Esdras, interpretei-a. O autor, certamente uma alma de esquerda e um corpo pouco amigo de banhos, lamentava-se por não poder mandar uns balázios aos turistas. Não partilhando a sua sede coreana de sangue nem a sua fúria contra os danos causados pela globalização concordei com aquela mensagem. Não há nada pior que um turista. Em Portugal o turista é muito respeitado. Normalmente é estrangeiro, o que o torna desde logo digno de reverência. Depois, fala uma língua que não o português, o que, para qualquer português, é característica merecedora de toda a admiração. Finalmente, os turistas que nos visitam sentem-se superiores a nós e agem de acordo com esse sentimento. Já os portugueses, quando vão ao estrangeiro, ficam muito contentes por toda a gente falar uma língua que não entendem. Assim que pisa solo estrangeiro, o turista português, ungido pelo Espírito Santo, principia a falar línguas. Da mesma forma que um inglês quando chega a Portugal, tira a roupa e vai para a praia, o português sai de Portugal, despe o idioma e mergulha em Babel. Com um vasto repertório de sons, mímica e caretas é a prova viva que não há nenhum português que não desconheça fluentemente cinco ou seis idiomas. No fundo, quando sai de Portugal o português continua a ser um português mas com uma muito maior probabilidade de se perder. O turista português vai carregado de boas intenções. Adopta comportamentos esquisitos. Não atira papéis para o chão. Espera que o sinal fique verde para os peões e só então atravessa. Agradece por tudo e por nada. É enganado e agradece. É insultado e agradece. É ignorado e agradece. À falta de uma profunda crença em Deus, o português agradece aos taxistas espanhóis. Agradece aos imigrantes magrebinos. Agradece a toda a gente. Quando no estrangeiro, o português encontra-se em estado de graças. E tudo está bem até que encontra outros portugueses. Rodeado de japoneses, italianos, americanos e ingleses e a muitos quilómetros de Portugal a última coisa que um turista português precisa é de esbarrar com um compatriota. Se isso acontece, lá se vai o estado de graças. Subitamente, o português lembra-se das chatices no trabalho, do Fernando Santos e de Portugal e uma nuvem de portugalidade ameaça o seu idílio. Sente-se tão português que até lhe dá vontade de chorar e amaldiçoa-se por não ter nascido turco, embora pareça albaniano.
Uma coisa é certa. O espectáculo do delírio, caracterizadamente patológico, primeiro faz rir, depois entristece fundo. Já não tenho idade para piedades destas, nem para aquela espécie de riso. Deixo de ler o Blasfémias a partir de hoje. A eles não lhes faz diferença, e a mim faz-me bem.
O primeiro grande mal dos homens que dominam a política portuguesa é de pensarem que marcam pontos junto do eleitorado com os mesmos métodos que usavam quando eram membros das juventudes partidárias: berrar muito nos comícios e colar muitos cartazes. O segundo mal é o método ensinado numa segunda fase da vida partidária que, o Dr Arnaut, sabiamente, baptizou: “Estamos cá uns para os outros”. Aqui, a berraria e a fúria “coladora” é substituída pela capacidade que o militante tem de trocar favores e jeitinhos que lhe permite ir subindo na estrutura.
O discurso de Marques Mendes é a imagem do seu percurso: diz que o nosso país tem de crescer 3% ao ano como berrava palavras de ordem nos comícios. “Três por cento” “três por cento” “três por cento”. E como se faz? Simples, com uma economia mais liberal mas... non troppo. E, nem pensar, em mudar o estado social. Estão a ver? Liberaliza-se a economia (a saúde não) mas aposta-se também no estado social. É perfeito: agrada-se aos empresários (apesar dele saber que os grandes empresários portugueses, com algumas excepções, não gostam destas “frescuras”) e pisca-se o olho aos trabalhadores. Como é que se faz esta alquimia? “Liberalismo” “Liberalismo” “Liberalismo” “Estado Social” “Estado Social” “Estado Social”, ou seja: “Uma só via, Social-Democracia”.
O blogue que mordeu o primeiro-ministro é, evidentemente, o Do Portugal Profundo, de António Balbino Caldeira. Mordeu e continua a morder, como se pode ler.
Ainda nesta edição, sobre a Independente, o curso de Sócrates e outros assuntos conexos, pode ler João Miranda, LucianoAmaral, Paulo Tunhas e Pedro Boucherie Mendes. Destaque ainda para Kissinger e o 25 de Abril, de Tiago Moreira de Sá, assim como para uma crítica demolidora ao livro de Miguel Portas, "No Labirinto".
A vitória esmagadora de Paulo Portas no CDS já começou a produzir efeitos no discurso à direita do PS. As declarações de Marques Mendes sobre o Serviço Nacional de Saúde e o liberalismo ma non troppo - essa do "liberalismo selvagem", ainda não percebi muito bem o que será - indiciam que o secretário-geral do PSD se prepara para as mudanças no discurso da oposição. N' O Insurgente, Luciano Amaral pergunta para que serve a vitória de Portas. Parece servir pelo menos para que o PSD de Mendes tente recentrar o seu discurso.
Uma criança, chamada Pedro Arroja, escreve no Blasfémias. Aristóteles dizia muito sabiamente, na Ética a Nicómaco, que é importante que, desde a mais tenra infância, as crianças adquiram tais e tais hábitos, necessários ao seu desenvolvimento moral posterior. A tendência excessiva à coquetterie, por exemplo, deve ser contrariada. Enfim, longe de mim a intenção de censurar a garrida natureza de Pedro Arroja e, menos ainda, de dar, de borla, lições de moral. As crianças não as pedem nem as desejam. Estou só a tentar ser útil.
Como se esperava, o curso de engenharia de José Sócrates na Independente faz agora parte do anedotário nacional. Ontem ouvi um especialista em arbitragem na TVI comentar a medíocre prestação de um homem do apito com o comentário: "deve-lhe ter saído o diploma de árbitro na Independente". A reacção dos circunstantes no programa da televisão de Pina Moura variou entre o sorriso e o embaraço. A credibilidade do primeiro-ministro está hoje seriamente danificada.
Roteiro Atlântico no Blogue [23 de Abril - 29 de Abril] I
EM DESTAQUE
SEMINÁRIO INTERNACIONAL CIDADANIA, POLITICAS PÚBLICAS E REDES SOCIAIS
As sociedades actuais atravessam profundos processos de mudança, que se prendem com a globalização, as recomposições do sistema económico, social e político, a entrada de novos actores na esfera pública.
Este contexto coloca novos desafios teóricos e metodológicos na agenda de pesquisa das ciências sociais e exige uma reflexão que permita identificar os vectores de mudança, ao nível das diferentes componentes sociais, das instituições estatais às organizações da sociedade civil e às relações informais, da esfera supra-nacional à escala local. São questões que suscitam novas abordagens, novos conceitos e novos valores.
O Seminário "Cidadania, Políticas Públicas e Redes Sociais" apresenta as reflexões de um conjunto de investigadores portugueses e da América Latina que se questionam sobre esta problemática, possibilitando um diálogo entre narrativas disciplinares diversas e o confronto de investigações provenientes de diferentes sociedades.
Le premier sondage deuxième tour a été diffusé dès 22 heures sur France 2, par Ipsos. Nicolas Sarkozy obtiendrait 54 % au second tour de l'élection présidentielle contre 46% à Ségolène Royal.
Merece uma leitura a entrevista ao "DN" de António José Morais, o professor de quatro das cadeiras na licenciatura conturbada do primeiro-ministro. Tudo muito regular, como seria de esperar. Aquela do "golpe de estado" lembra outros tempos.
A blogosfera tornou-se incontornável ao sistema político-mediático português. Doravante, não é mais possível governar segundo a velha máxima salazarista de que "politicamente, só existe o que o povo sabe que existe". Do Portugal Profundo
Le candidat de l'UMP est en tête avec 29,9 % des voix, selon les sondages sortie des urnes. Ségolène Royal est deuxième à 25,8 %. François Bayrou est à 18, 5 % et Jean-Marie Le Pen, à 11 %. Sources : IFOP, IPSOS, CSA, TNS-Sofres.
Em Espanha, no auge do felipismo socialista, Pedro J. Ramirez, director do diário "El Mundo", apelidou de psoeñoritos uma nova elite de empresários e gestores, emergente das relações nebulosas - e também promíscuas - com o PSOE e o poder do Estado. Foram, em grande medida, responsáveis pela queda final de González - de que resultou a vitória de Aznar. Agora, J. Ramirez voltou a usar a alcunha a propósito de Zapatero e sus muchachos. Em Portugal, podemos traduzi-los para psenhorzinhos - e é bem verdade que Pina Moura é um caso paradigmático, como se pode ler nesta crónica de Ricardo Costa no "DE" (via O Insurgente). Mas não é caso único.
Dirigindo-se a Sócrates, [Mário Soares] afirmou: "Continue com a determinação, a inteligência e a coragem que demonstrou nestes dois anos. Outros, antes de si, foram vítimas de ataques sórdidos e infundados. Lembremos o camarada Ferro Rodrigues".
Ex-professor de Sócrates envolvido no projecto Morais, GEPI e construtora da Covilhã fizeram moradia de Armando Vara 20.04.2007 - 09h03 José António Cerejo PÚBLICO
Não é preciso ser psicanalista para ler na relativização do aspecto formal da democracia por José Sócrates uma referência (inconsciente?) a outras formalidades.
I'm going to a town that has already been burned down I'm going to a place that is already been disgraced I'm gonna see some folks who have already been let down. I'm so tired of America
I'm gonna make it up for all of the Sunday Times I'm gonna make it up for all of the nursery rhymes They never really seem to want to tell the truth I'm so tired of you America
Making my own way home Ain't gonna be alone I got a life to lead America I got a life to lead
Tell me do you really think you go to hell for having loved? Tell me and not for thinking every thing that you've done is good (I really need to know) After soaking the body of Jesus Christ in blood
I'm so tired of America (I really need to know)
I may just never see you again or might as well You took advantage of a world that loved you well I'm going to a town that has already been burned down I'm so tired of you America
Making my own way home Ain't gonna be alone I got a life to lead America I got a life to lead I got a soul to feed I got a dream to heed And that's all I need
Making my own way home Ain't gonna be alone I'm going to a town that has already been burned down
Lê-se e não se acredita. O primeiro-ministro diz que, apesar do "respeito pelas regras formais da democracia, do direito, ou a realização periódica de eleições" contarem, não quer uma "democracia formal". É preciso "qualidade", e "o PS é o partido da qualidade da democracia". Qualquer pessoa que saiba ler tem obrigação de apanhar um susto quando um primeiro-ministro diz que a "democracia formal" não lhe basta. E de desconfiar das injecções de "qualidade" administradas por ERC's e coisas assim. Sobretudo depois das últimas peripécias que tiveram como corolário aquela extraordinária conferência de imprensa da Independente, com a bajulação a José Sócrates e à sua eloquentíssima "oração de sapiência" por um senhor de que não me lembro o nome. Há uns tempos atrás, o Henrique Raposo andava por este blog inquietadíssimo com certos sinais de ameaça à democracia que por aí se manifestavam. Não levei a coisa muito a sério. Hoje começo a levar. Esta da "democracia formal" inquieta. É a altura de pedir desculpa ao Henrique.
Em tempos, Portugal foi um país traduzido do francês. De certa maneira, porque era assim que a elite portuguesa tentava civilizar o país: copiando as leis, os romances, e o vestuário da França. França e modernidade eram sinónimos. Embora se usasse a expressão “para inglês ver”, era pelos franceses que os portugueses de destaque adoravam ser vistos. Salazar sempre gostou muito de fascinar escritores e jornalistas franceses. Em 1975, o primeiro debate entre Soares e Cunhal aconteceu na televisão francesa – e em francês. As coisas mudaram muito nos últimos 30 anos – ao ponto de os galicismos deixarem finalmente de afligir os puristas da língua. Para emigrar, passámos a preferir a Inglaterra – aliás, como os franceses. A França, para os portugueses, já não é o que era. Mas para os franceses também não, como se tem constatado na eleição presidencial deste ano, que terá a primeira volta no próximo domingo.
Se Portugal deixou de ser “francês”, a França parece mais “portuguesa”. Portugal e a França são os dois países que menos crescem na Europa, e onde nenhum cálculo provou ainda que o “modelo social” é sustentável. Mas nesta França em declínio faltam os costumes que, em Portugal, têm mantido os conflitos no suave limite das marchas ordeiras e providências cautelares. Em França, os subúrbios andam amotinados, e as sondagens de opinião atribuem um peso embaraçoso aos partidos “anti-sistema” (25 % no conjunto).
Talvez Portugal seja, como quer o Economist, o “novo homem doente” da Europa. Mas a França é mais do que isso: é a própria doença da Europa. Portugal, um pequeno país, só incomoda a regra dos 3%. A França, enquanto grande economia, estraga todas as médias europeias. É ainda em França que residem alguns dos principais estrangulamentos do “processo europeu”, desde a recusa da “constituição” até à dissipação de 45 % do orçamento comunitário na agricultura. Muita coisa na Europa precisa de passar pelo desfiladeiro francês. Daí que a imprensa europeia tenha resolvido imaginar estas eleições em França como um momento de decisão para todo o continente. E talvez por isso, não resistiu a encarar a disputa entre os candidatos à presidência francesa segundo um padrão universal, compreensível por todos, como uma batalha localizada da guerra global entre a “liberalização” e o “estatismo”. Ora, esta interpretação globalizante da política francesa é ilusória.
Os limites do exercício notam-se quando se tentam distribuir os papéis de defensores dos grandes princípios pelos candidatos. Sarkozy deveria ser o “liberal”. Infelizmente, adora centros de decisão nacional. A política francesa não é simples nem é traduzível. Para começar, há um sistema eleitoral que permite a desagregação na primeira volta, antes de obrigar à agregação na segunda. Isso faz com que, à partida, tudo pareça possível. Nem Sarkozy, o favorito, consegue melhor do que 26 % de intenções de voto. Os eleitores têm de fazer muitos cálculos, e daí a indecisão, e os candidatos têm de falar para muitos lados, e daí as mensagens confusas. Mas a história não acabará com as voltas das presidenciais. Em Junho, haverá ainda as das legislativas. Em França, o poder dá muitas voltas. O sistema político da “V República” é um dos mais complicados do mundo. Ao contrário do que acontece em Portugal, o presidente tem responsabilidades executivas. Só que não há garantia de a presidência e o governo estarem sintonizados. De Gaulle ainda entendeu que o presidente, como condutor da governação, não podia perder uma única eleição nacional – foi por isso que se demitiu em 1969. Mas Mitterrand e Chirac aceitaram derrotas eleitorais e a coabitação com ministros da área política contrária. O resultado foi um poder executivo partilhado, desorientado e até deslegitimado. Há anos que, em França, nenhuma “grande reforma” resiste a uma “grande manifestação”.
Isto é assim, porque a França é um país onde a política é, há séculos, pensada em termos de uma latente “guerra civil” -- veja-se, a propósito, Du Bon Usage de la Guerre Civile en France (2006) de Jacques Marseille. Entre revoluções, o medo das clivagens favorece fórmulas de reconciliação, necessariamente híbridas, e governos “sem excessos de zelo” (como recomendava Talleyrand). No seu livro Ensemble (2007), Sarkozy explicou tudo: “a política tem por objectivo unir os franceses, e não dividi-los”. Em vez de uma alternância entre liberais e sociais democratas, a França continuará a gerar fusões e ambiguidades. Porque a prioridade é a “política”, não é a “modernização”. O Economist acertou mais acerca de Sarkozy na capa do seu último número, quando o mostrou como Napoleão (o grande “fusionista”), do que no editorial, onde o tentou imaginar como missionário do liberalismo. Há meses, a mesma revista desejou uma Thatcher para a França. Mas a França não pode ter uma Thatcher: pode ter um novo Giscard (com Bayrou), um Mitterrand rasca (com Ségolène), ou um Chirac em melhor forma (apesar de Sarkozy tentar dissimular a filiação). Não vale a pena ter grandes esperanças nem grandes receios.
Bernardo Pires de Lima e Pedro Marques Lopes no "Descubra as Diferenças"
DESCUBRA AS DIFERENÇAS
PROGRAMA DE DEBATE POLÍTICO, EM PARCERIA COM A REVISTA ATLÂNTICO
SEXTA-FEIRA, 20 de ABRIL - 19H05 DOMINGO, 22 de ABRIL - 11H05 e 19H05 (redifusão)
Esta semana, Paulo Pinto Mascarenhas e Antonieta Lopes da Costa em debate com Bernardo Pires de Lima e Pedro Marques Lopes.
Juntos, abordarão vários temas em destaque na actualidade:
- Directas no CDS-PP - o que vem aí... Paulo Portas?
- Eleições presidenciais francesas, a três dias da primeira volta. Será Sarkozy e mais quem para a segunda? Ségolène ou Bayrou?
- O regresso do urso: Putin e o pior do seu autoritarismo, com a detenção de manifestantes, entre os quais o campeão mundial de xadrez, Kasparov. Xeque ao rei?
- A tragédia na Virginia - será que há alguma explicação para a sucessão de massacres em estabelecimentos de ensino nos EUA?
- Liberdade de imprensa em Portugal - com que letras se escreve ela, nos dias que correm?
- Abertura do Túnel do Marquês - quem pede responsabilidades à CML pelos atrasos?
- A proposta do Banco de Portugal sobre a legislação laboral, um tema-tabu no nosso país.
“Descubra as Diferenças”… Um programa de opinião livre e contraditório, onde o politicamente correcto é corrido a quatro vozes e nenhuma figura é poupada.
"'O meu pai bloqueou a porta com o corpo para permitir aos alunos fugir', garantiu Joe Librescu. O filho do professor de Engenharia Liviu Librescu soube da morte heróica do pai através de e-mails enviados pelos alunos deste sobrevivente do Holocausto. Judeu da Roménia, Librescu morreu como viveu: a lutar. Enviado para um campo de trabalhos forçados na II Guerra Mundial, escapou aos campos de concentração. O sucesso como engenheiro valeu-lhe mais tarde autorização do regime comunista romeno para emigrar para Israel. Aí viveu entre 1978 e 1985, quando se mudou para os EUA. Professor em Virginia Tech há mais de 20 anos, era famoso pela investigação em engenharia aeronáutica. Morreu no dia em que os EUA homenageavam as vítimas do Holocausto." DN, edição de 19.04.07 É perfeitamente admissível que o relato esteja efabulado, mas o próprio assassino apostou tudo em trocar a sua incomensurável nulidade pela ascensão a figura mitológica. Agora, a História não pode, pois, senão dar-lhe uma resposta: esquecê-lo imediatamente. E, à maneira da memória selectiva individual, conservar apenas o que merece ser contemporâneo do futuro: a impressão de os demónios servirem exclusivamente para despertar humanidade.