Receita para fazer um político de sucesso
RUI RAMOS
(PÚBLICO 28.02.07)
Os romanos abriam pássaros para adivinhar o futuro. No que diz respeito ao futuro da nossa moda política, poderemos talvez trocar as entranhas das aves pelas campanhas eleitorais em curso na França e nos EUA. Uma coisa é certa: a receita dos candidatos que tiverem sucesso será geralmente copiada. Foi assim, nos seus tempos de glória, com Clinton e Blair. Há-de ser assim com Ségolène ou Sarkozy, ou com Hillary Clinton, Barack ou Giuliani. Valerá por isso a pena examinar desde já algumas tendências da culinária política na França e na América. Ajudará talvez aqueles que por aqui andem tentados por começar ou recomeçar uma ascensão política.
A primeira conclusão é reconfortante para os profissionais da política. Valores e projectos continuam a precisar de protagonistas com cara e biografia. E nada como um político devidamente amestrado para desempenhar o papel. É o que se deduz do menu de candidatos à escolha em França e na América. Os pratos mais fortes consistem todos em velhos tarimbeiros. A célebre “inexperiência” de Barack Obama assenta numa carreira política iniciada há onze anos. A “frescura” de Ségolène Royal é um fenómeno ainda mais notável. Resiste desde 1982, quando entrou no staff de Mitterrand.
Não há volta a dar: o primeiro truque da receita é, portanto, encontrar um político batido e sem ingenuidades. Depois, todavia, convém recorrer a tantas operações plásticas quanto as necessárias para, seja qual o for o seu cadastro, fazê-lo parecer fresco e inovador. Repare-se que até Sarkozy, depois de cinco anos no governo, reclama o papel de “challenger”. Aqui, o aspecto físico ajuda. O líder obeso, envelhecido, fumador e beberrão – digamos, Churchill – é hoje uma memória histórica. Mais do que ideias novas, importa uma cara nova. Pode ser injusto. Mas vem assim na receita.
Quanto a convicções, a receita é complicada: é preciso metê-las no cozinhado, mas de modo que não ofendam o paladar de ninguém. Para isso, os melhores cozinheiros recomendam que se evite o doutrinarismo outrora atribuído a Thatcher. Todos se lembrarão como, há dois anos, Angela Merkel se deu mal com isso na Alemanha. O perigo é maior para os políticos de direita, onde ainda se acredita em “ismos” com bibliografia e programa. Os candidatos da esquerda, cujos partidos de governo há muito limparam os armários de qualquer vestígio de socialismo, estarão mais à vontade. O truque é preferir uma longa e variada lista de medidas a qualquer plano conciso e coerente. E acima de tudo, fazer da imprecisão uma prova de grandeza de alma. Barack é um bom exemplo. Propõe-se ultrapassar divisões e reconciliar os seus compatriotas. Como se o conflito, em política, resultasse apenas da incompreensão dos políticos, e não da incompatibilidade das opções. Daí que convenha ao candidato ideal, em qualquer tema, falar pelos dois lados e também contra os dois lados. Deve, por exemplo, comover-se com a “coesão”, mas ser igualmente veemente a propósito da “competitividade”. Aqui, a velha sebenta de sincretismo do professor Blair é ainda de aproveitar.
Finalmente, talvez não seja necessário imitar o basismo de Ségolène, mas ficará bem ao candidato dar aos seus ouvintes a impressão de que só lhes está a falar porque, antes, os ouviu. Para reforçar esse efeito de identificação, dará jeito ao candidato ter uma história que faça do seu eventual sucesso, não apenas um triunfo pessoal, mas uma marca da vida nacional. Vir a ser, por exemplo, a primeira mulher na presidência, como Ségolène ou Hillary, ou o primeiro afro-americano, como Barak, ou qualquer coisa igualmente digna de um livro de recordes. Distrai a imprensa e dá aos apoiantes do candidato a sensação de que estão a fazer história.
É óbvio que a receita não resolve todas as dificuldades. As duas maiores estão nas “máquinas”, isto é, nas estruturas capazes de enquadrar e mobilizar activistas e eleitores, e nas “grandes questões”, isto é, nos temas ditados pelo noticiário ou pela curiosidade da imprensa. Quem quer ganhar eleições não pode dispensar as primeiras, nem escapar às segundas. Ségolène estragou um pouco a sua imagem ao ter de saciar o velho esquerdismo do PS, e arranjar lugar para os seus marretas. Mas era o preço para poder contar com o partido. Nos EUA, Hillary Clinton não consegue sacudir a sombra iraquiana. A imprensa não lhe dará descanso por esse lado.
A política, mesmo com as melhores receitas, não é fácil. Como Saturno, tem uma tendência para devorar os seus filhos. Talvez os aspirantes ao sucesso pudessem experimentar a ser um pouco menos digeríveis, mais duros. Mas há qualidades que não se fabricam. E no fim, há ainda a questão de Napoleão, que em relação a qualquer general, nunca perguntava se era bom, mas se tinha sorte.
Artigo de opinião publicado quarta-feira no jornal "Público"
Paulo Pinto Mascarenhas
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01:30
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