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quinta-feira, março 01, 2007

 

Receita para fazer um político de sucesso

RUI RAMOS
(PÚBLICO 28.02.07)



Os romanos abriam pássaros para adivinhar o futuro. No que diz respeito ao futuro da nossa moda política, poderemos talvez trocar as entranhas das aves pelas campanhas eleitorais em curso na França e nos EUA. Uma coisa é certa: a receita dos candidatos que tiverem sucesso será geralmente copiada. Foi assim, nos seus tempos de glória, com Clinton e Blair. Há-de ser assim com Ségolène ou Sarkozy, ou com Hillary Clinton, Barack ou Giuliani. Valerá por isso a pena examinar desde já algumas tendências da culinária política na França e na América. Ajudará talvez aqueles que por aqui andem tentados por começar ou recomeçar uma ascensão política.


http://clinton.senate.gov/images/official_portrait_10_02.jpg


A primeira conclusão é reconfortante para os profissionais da política. Valores e projectos continuam a precisar de protagonistas com cara e biografia. E nada como um político devidamente amestrado para desempenhar o papel. É o que se deduz do menu de candidatos à escolha em França e na América. Os pratos mais fortes consistem todos em velhos tarimbeiros. A célebre “inexperiência” de Barack Obama assenta numa carreira política iniciada há onze anos. A “frescura” de Ségolène Royal é um fenómeno ainda mais notável. Resiste desde 1982, quando entrou no staff de Mitterrand.


http://www.telegraph.co.uk/news/graphics/2006/04/13/wfran13.jpg


Não há volta a dar: o primeiro truque da receita é, portanto, encontrar um político batido e sem ingenuidades. Depois, todavia, convém recorrer a tantas operações plásticas quanto as necessárias para, seja qual o for o seu cadastro, fazê-lo parecer fresco e inovador. Repare-se que até Sarkozy, depois de cinco anos no governo, reclama o papel de “challenger”. Aqui, o aspecto físico ajuda. O líder obeso, envelhecido, fumador e beberrão – digamos, Churchill – é hoje uma memória histórica. Mais do que ideias novas, importa uma cara nova. Pode ser injusto. Mas vem assim na receita.


http://www.illinoischannel.org/Senator%20Barack%20Obama.jpg


Quanto a convicções, a receita é complicada: é preciso metê-las no cozinhado, mas de modo que não ofendam o paladar de ninguém. Para isso, os melhores cozinheiros recomendam que se evite o doutrinarismo outrora atribuído a Thatcher. Todos se lembrarão como, há dois anos, Angela Merkel se deu mal com isso na Alemanha. O perigo é maior para os políticos de direita, onde ainda se acredita em “ismos” com bibliografia e programa. Os candidatos da esquerda, cujos partidos de governo há muito limparam os armários de qualquer vestígio de socialismo, estarão mais à vontade. O truque é preferir uma longa e variada lista de medidas a qualquer plano conciso e coerente. E acima de tudo, fazer da imprecisão uma prova de grandeza de alma. Barack é um bom exemplo. Propõe-se ultrapassar divisões e reconciliar os seus compatriotas. Como se o conflito, em política, resultasse apenas da incompreensão dos políticos, e não da incompatibilidade das opções. Daí que convenha ao candidato ideal, em qualquer tema, falar pelos dois lados e também contra os dois lados. Deve, por exemplo, comover-se com a “coesão”, mas ser igualmente veemente a propósito da “competitividade”. Aqui, a velha sebenta de sincretismo do professor Blair é ainda de aproveitar.


http://images.askmen.com/men/celeb_profiles_business_politics/pictures/tony_blair/tony_blair.jpg


Finalmente, talvez não seja necessário imitar o basismo de Ségolène, mas ficará bem ao candidato dar aos seus ouvintes a impressão de que só lhes está a falar porque, antes, os ouviu. Para reforçar esse efeito de identificação, dará jeito ao candidato ter uma história que faça do seu eventual sucesso, não apenas um triunfo pessoal, mas uma marca da vida nacional. Vir a ser, por exemplo, a primeira mulher na presidência, como Ségolène ou Hillary, ou o primeiro afro-americano, como Barak, ou qualquer coisa igualmente digna de um livro de recordes. Distrai a imprensa e dá aos apoiantes do candidato a sensação de que estão a fazer história.


http://park.org/UnitedStates/bill-portrait.gif

É óbvio que a receita não resolve todas as dificuldades. As duas maiores estão nas “máquinas”, isto é, nas estruturas capazes de enquadrar e mobilizar activistas e eleitores, e nas “grandes questões”, isto é, nos temas ditados pelo noticiário ou pela curiosidade da imprensa. Quem quer ganhar eleições não pode dispensar as primeiras, nem escapar às segundas. Ségolène estragou um pouco a sua imagem ao ter de saciar o velho esquerdismo do PS, e arranjar lugar para os seus marretas. Mas era o preço para poder contar com o partido. Nos EUA, Hillary Clinton não consegue sacudir a sombra iraquiana. A imprensa não lhe dará descanso por esse lado.


A imagem “http://www.syti.net/Images/Sarkozy_rageur.jpg” contém erros e não pode ser exibida.


A política, mesmo com as melhores receitas, não é fácil. Como Saturno, tem uma tendência para devorar os seus filhos. Talvez os aspirantes ao sucesso pudessem experimentar a ser um pouco menos digeríveis, mais duros. Mas há qualidades que não se fabricam. E no fim, há ainda a questão de Napoleão, que em relação a qualquer general, nunca perguntava se era bom, mas se tinha sorte.


Artigo de opinião publicado quarta-feira no jornal "Público"

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Paulo Pinto Mascarenhas | 01:30 | 3 comments

 

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

 

Bem-vindos ao século XIX

RUI RAMOS
(PÚBLICO 14.02.07)



Sem dúvida que as esquerdas tiveram uma vitória no domingo. Resta saber que vitória foi. Para algumas dessas esquerdas – as que não gostam deste governo do PS – foi, provavelmente, uma vitória de Pirro. Como é que vão agora, sempre que Sócrates maltratar os funcionários, acusá-lo outra vez de não ser de esquerda? Na última semana da campanha, quando o “não” começou a pedir quartel, vimo-lo como o mais duro general do “sim”. Mas as esquerdas que detestam Sócrates sabem bem que, no fundo, ele não mudou. No momento do triunfo, ei-lo subitamente, para grande irritação das restantes esquerdas, a introduzir condições à “livre vontade” da mulher, sob o eufemismo de “reflexão” e “aconselhamento”.



Talvez algo tenha mudado no domingo, mas nunca será a revolução que uns desejavam e outros temiam.
E terá de ser assim por uma razão: é que o país, tal como Sócrates, pode ter mudado uma lei, mas também não mudou em si. Os entusiastas do “sim”, entretidos a celebrar o que alguns julgam ser a vitória póstuma de Afonso Costa, negam a realidade quando falam do “recuo do não” e reivindicam a representação de um “país moderno e progressivo”. Nada disso é verdade. Se o “sim” teve um milhão de votos a mais do que em 1998, o “não” também recolheu mais 200 000. E que conceito de “modernidade” e “progresso” autoriza a fazer dos concelhos mais rurais, envelhecidos e analfabetos do sul – aqueles em que o “sim” teve os melhores resultados
–, a vanguarda do “progresso” e da “modernidade”?



Para perceber a estranha mentalidade destes “sins” eufóricos, teremos de recuar ao século XIX. As esquerdas em Portugal acreditaram sempre que a “modernidade” estava destinada a consistir numa simples versão laicista da homogeneidade católica do Antigo Regime: onde antes todos eram “católicos”, todos um dia seriam “homens de esquerda” (inclusive as mulheres...). Foi o que aprenderam com Auguste Comte, Marx, Engels e outros mestres menores. Tal como a história antiga teria consistido na expansão da igreja cristã, o “progresso” haveria de significar o triunfo total do secularismo socialista, supostamente avalizado pela ciência moderna. As direitas apareceram sempre, no imaginário esquerdista, como uma espécie de índios americanos, condenados a desaparecer perante as iluminadas caravanas de pioneiros da esquerda. Foi assim que Afonso Costa, em 1910, se convenceu de que podia acabar com o catolicismo em “duas gerações”. O que aconteceu a seguir é conhecido. Mas pelos vistos, houve quem não tivesse aprendido nada. As esquerdas portuguesas dão-nos as boas vindas ao século XXI com as ideias e preconceitos do século XIX.



Se algo define a “modernidade”, não é o triunfo exclusivo desta ou daquela ideologia ou modo de vida, mas a institucionalização do pluralismo. O “não” de domingo não representa o Portugal antigo: é apenas a outra metade de um país que, ao longo da sua história, foi sempre fundamentalmente plural. Já houve quem, a propósito, lembrasse o mapa eleitoral de 1975. Mas há projecções geográficas mais antigas da diversidade política dos portugueses. A primeira que conheço é a do mapa do apoio das câmaras municipais ao governo liberal de 1822: lá está, em esboço, a separação entre o sul e o norte que viria a marcar a democracia a partir de 1975. Ao contrário do que diz a esquerda, nenhuma dessas metades do país é mais “moderna”, e ao contrário do que insinua alguma direita, nenhuma é mais “portuguesa”. Assim como as esquerdas não têm o monopólio do Portugal “moderno e progressivo”, também as direitas não possuem o exclusivo do Portugal “antigo e tradicional”. A base sócio-cultural que sustenta as esquerdas políticas é tão antiga como a que sustenta as direitas, e a base sócio-cultural de apoio das direitas revelou-se tão ou mais capaz de assumir a causa da modernização do que a das esquerdas. Basta pensar na história do país nos últimos trinta anos: quem é que principalmente lutou por uma democracia de tipo europeu ocidental em 1975-1980, e quem é que dirigiu a abertura da economia em 1985-1995? Ninguém, neste país, tem o privilégio do progresso e da democracia, ou das cidades e dos jovens. Por exemplo, nos distritos em que o “sim” ganhou, foi nos concelhos das capitais de distrito que o “não” obteve resultados acima da média: no sul, o “não” é urbano. Isto quer dizer apenas que as cidades são, em cada área cultural, mais heterogéneas do que o campo envolvente.



Em Identificação de um País (1986), José Mattoso explicou como esta pluralidade estava inscrita no código genético de Portugal. Pouca gente, pelos vistos, percebeu a lição. O que a modernidade fez em Portugal foi dar dimensão política a velhas fronteiras culturais. É significativo que tendo a sociedade portuguesa mudado tanto nos últimos quarenta anos, essas fronteiras tenham permanecido, independentemente das civilizações rurais com que andaram associadas. Aqueles que aspiraram a governar Portugal longamente e mais ou menos em sossego souberam sempre que, além do país que estava com eles, havia outro país que precisavam de ter em conta. Até os republicanos, no fim, procuraram corrigir o seu terrorismo laicista, com António José de Almeida a impor o barrete cardinalício ao núncio papal. Salazar, ao contrário do general Franco, nunca restaurou a monarquia e o catolicismo como religião de Estado. E Sócrates soube falar de “consenso” – para horror das esquerdas que gostariam de avançar para a “solução final” do “problema católico”.



Este país e o seu futuro não pertencem ao “sim”, nem ao “não”. Não entrámos na modernidade no domingo passado. Estamos nela há duzentos anos. O tempo suficiente para percebermos que nunca teremos todos as mesmas opiniões. Tirem portanto as pêras postiças à Afonso Costa, e portem-se como gente grande.


Artigo do "Público"de quarta-feira, revista pelo autor para o blogue da Atlântico.

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Paulo Pinto Mascarenhas | 02:58 | 0 comments

 


EDIÇÃO Nº 25

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...

A NOSSA REVOLUÇÃO DE ABRIL - A SÉRIO E A BRINCAR
por RUI RAMOS E 31 DA ARMADA

O MAIS IMPORTANTE AINDA ESTÁ POR FAZER!
por ANTÓNIO CARRAPATOSO

A VELHA EUROPA E A NOVA INTEGRAÇÃO EUROPEIA
por VÍTOR MARTINS

DOIS ANOS DEPOIS
por JOÃO MARQUES DE ALMEIDA, LUCIANO AMARAL e PAULO PINTO MASCARENHAS

COMO O ESTADO MATOU O COZINHEIRO ALEMÃO
por PAULO BARRIGA

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por PEDRO BOUCHERIE MENDES

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Com a (i)moderação de Antonieta Lopes da Costa e a presença permanente de Paulo Pinto Mascarenhas. Sexta às 19h10.

Com repetição Domingo às 11h00 e às 19h00.

 

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