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quinta-feira, março 29, 2007

 

Por quem os telefones tocam

RUI RAMOS
(PÚBLICO 28.03.07)

http://blog.estadao.com.br/blog/media/old-TV-set.jpg

Parece que já quase toda a gente aprendeu que um concurso televisivo não é um referendo. Este, que acabou no domingo com a vitória de Salazar, reduziu-se durante meses a uma discussão sobre Salazar e Cunhal, e acabou num despique entre os dois. A votação por telefone envolveu sobretudo os que quiseram que um deles ganhasse ao outro. Daí o resultado, a que não se deve dar outra importância. Note-se que as sondagens com amostras representativas hierarquizaram os candidatos a Grande Português de um modo completamente diferente. Por isso, o que interessa comentar não é a votação, mas a discussão que a RTP suscitou.

http://inet.sitepac.pt/SalazarGageiro.jpg

Foi Salazar que concentrou quase todas as atenções. Ora, a propósito de Salazar, não se discutiu uma personagem histórica, mas uma figura de retórica – um cabide imaginário onde o facciosismo de uns e a ignorância de outros penduraram arbitrariamente males e virtudes. Notou-se isso até no modo como os que comentaram, a favor ou contra, a ortodoxia financeira, o colonialismo, ou a neutralidade nos conflitos europeus raramente pareceram conscientes de que nada disso foi específico do salazarismo. A obsessão com as finanças já tinha sido de Afonso Costa. A fé colonial atingira um grau muito superior em Norton de Matos. A neutralidade correspondia à posição portuguesa que geralmente convinha à Inglaterra.



Visto desta democracia, é difícil não achar repugnante um regime como o que Salazar manteve neste país. Foram décadas onde, em Portugal, o governo negou ou limitou o direito de oposição, autorizou a tortura como um método normal para recolher informações, sujeitou a imprensa a censura, e praticou a discriminação política no emprego. Mas quando vemos que alguns dos que condenam o salazarismo invocando esses despotismos e crimes são os mesmos que nunca se incomodaram com essas coisas na União Soviética ou em Cuba, percebemos que a indignação que o salazarismo neles provoca não se deve ao horror perante a ditadura, mas antes às causas que, segundo eles, a ditadura terá beneficiado: o capitalismo e a igreja. Recordo, a propósito, um artigo de William Buckley a recomendar a Pinochet que se fingisse anti-americano, como são hoje Chavéz e Mugabe. Teria sido a maneira, segundo Buckley, de Pinochet diminuir drasticamente o número dos seus críticos. Buckley estava a ironizar, claro. Mas estava também infelizmente a dizer uma verdade.



Tudo isto nos remete para uma época da história portuguesa em que o que importava, num regime, não era a maior ou a menor liberdade que esse regime garantia, mas a sua finalidade facciosa. Salazar gostava de lembrar que, sob a I República, tinha sido vítima de censura, e que em 1919 estivera para ser saneado por delito de opinião. Mas não se importou, uma vez no poder, de sujeitar os seus adversários a censura e saneamento por opinião. O mesmo, aliás, haveriam de fazer alguns anti-salazaristas durante o PREC, em 1975. Leia-se a propósito o edificante “Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos sujeitos às Autoridades Militares”.

A imagem “http://www.cavabrasil.com.br/images/telefone_VERMELHO.gif” contém erros e não pode ser exibida.

Salazar e os seus adversários pensavam em termos de guerra civil. Em 1926, Raul Proença, aliás um dos mais liberais entre os republicanos, reconheceu que “é preciso ser cruel para alguns, para bem da pátria”, e advertiu os seus correligionários a propósito da atitude a ter para com os que estavam do outro lado: “se não ousais, eles ousarão um dia. Se os não subjugardes, eles vos subjugarão. É deste hoje uma luta de vida ou de morte”. Foi esta a tragédia portuguesa do século XX: um país em que era preciso censurar para não ser censurado, sanear para não ser saneado, prender para não ser preso. Foi deste país que nos começámos a livrar desde 1976. E foi desse país que, nos últimos meses, recebemos vários telefonemas.



Devemos ensinar às criancinhas que Salazar e Cunhal eram maus? Se quiserem. Mas seria talvez preferível prepará-las, não para odiar Cunhal ou detestar Salazar, mas para resistir à mentalidade de guerra civil que criou os Cunhais e os Salazares, por exemplo, à mania para chamar “fascista” a quem pensa de uma maneira diferente, ou ao hábito de reivindicar em exclusivo a “democracia” e a “modernidade”. O fogo apagou-se, mas há muitos carvões com vontade de se acenderem. Foi o que transpareceu na discussão à volta deste concurso. Sessenta mil telefonemas a favor de um Salazar em confronto com Cunhal num concurso televisivo não chegam para fazer uma Frente Nacional. Mas há gente à esquerda que gostaria de transformar esses telefonemas numa Frente Nacional – porque precisa de um par à altura para criar o ambiente em que a sua própria intolerância possa parecer justificada.

http://nebardi.files.wordpress.com/2006/05/espelhomeu.jpg

Por isso, meu caro leitor, se lhe aconteceu chegar ao fim deste texto a pensar que o autor quis “branquear” Salazar e portanto é um “fascista”, faça isto: procure um espelho, ponha-se em frente, e o que vir no espelho, pode ter a certeza de que é um “fascista”. Tente então resistir a esse “fascista”. Não pergunte por quem os telefones tocam: é por si.

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Paulo Pinto Mascarenhas | 00:11 | 6 comments

 

quinta-feira, março 22, 2007

 

Uma questão de muita fé

RUI RAMOS
[PÚBLICO 21.03.07]



A imagem “http://www.tecnociencia.es/especiales/ue_politica_agraria/img/tratado_roma.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

A secularização não impediu os cidadãos dos estados europeus de continuarem a ser convidados a ter fé em muita coisa. Por exemplo, na “Europa”. Europa, aqui, é apenas a sinédoque que permite à União Europeia apresentar-se como um continente. A comemoração dos 50 anos do Tratado de Roma, no próximo domingo, vai certamente tentar estimular a crença no “projecto europeu”. Só que nenhuma boa vontade resiste quando a encomenda é desproporcionada. E é o caso.


http://www.panrotas.com.br/canais/publicidade/Espanha_Portugal/images/moeda/euros.jpg

A religião europeia exige-nos demasiado. Pede, por exemplo, para nos impressionarmos com o caminho andado até à moeda única. De facto, há meio século os crentes tinham esperanças maiores. Já devíamos ter os Estados Unidos da Europa, e não apenas um banco central. Mas no processo europeu nunca houve milagres. Nem nas origens, nem nos resultados. Num continente devastado e ocupado por americanos e soviéticos, era difícil resistir às vantagens de uma articulação das economias e governos ocidentais. E quanto ao que acabou por ser gerado, não é propriamente motivo para exaltações: um aglomerado de estados com populações a envelhecer, sem ideia de como sustentar os seus esquemas sociais, e bem atrás dos EUA na criação de empregos e na capacidade de integrar migrantes. Dizem-nos que evitou guerras na Europa ocidental. Com a NATO e as bases americanas, teria sido necessária a UE para garantir a paz? E quando houve guerras, como nos Balcãs, não foi possível dispensar os EUA.

Cimeira Europeia da Juventude em directo

O currículo da UE é, como seria de esperar, ambíguo. Ajuda os seus inquilinos mais pobres, mas muito mais os ricos, através da imortal Política Agrícola Comum. E por aí fora. Aliás, os fiéis são os primeiros a exibir os “bloqueios” do projecto. Em grande medida, porque acreditam que a solução para as deficiências da união é mais união. O argumento assenta na tese de que a UE é a única plataforma para resolver os problemas da adaptação dos estados europeus à chamada “globalização”, isto é, ao modelo de criação da riqueza assente num mercado mundial mais ou menos livre. Pode ser que sim. Mas pode também ser que não, como se viu no caso da liberalização dos serviços o ano passado.

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Para ultrapassar as imperfeições da UE, houve quem tivesse acreditado até há pouco tempo no dinamismo do alargamento. Com a expansão estacionada às portas da Turquia, a ênfase voltou a estar na constituição, ou mais exactamente no fim da regra da unanimidade na tomada de decisões. É esta a chave? Trata-se de um mecanismo, não de uma direcção. E o problema está na direcção. Para onde vai a UE? Tornar-se-á uma fortaleza proteccionista, para consolo de José Bové, ou uma exposição universal permanente, aberta ao resto do mundo? O que está contido nesta e noutras escolhas não é uma simples discussão técnica sobre o melhor modo de criar riqueza, mas um debate politico sobre que tipo de sociedades desejamos para a Europa. E a verdadeira “questão europeia” é saber se esse debate político pode ser conduzido ao nível olímpico das instituições europeias, entre estados, em vez de dentro de cada comunidade política nacional, entre cidadãos.


A imagem “http://www.historiasiglo20.org/europortug/images/europa15.gif” contém erros e não pode ser exibida.

A dificuldade em acreditar nessa hipótese nada tem que ver com o eurocepticismo, a única atitude que consegue ser tão ridícula como a eurofilia. Como sugerem as diferenças de performance dos vários membros, se a UE (e o euro) não é a salvação, também não é necessariamente a perdição de nenhum país. O problema está em que nestes últimos anos, demasiados governos e grupos habituaram-se a fazer passar reformas sob a bandeira da pressão externa da UE, de modo a pouparem-se aos custos de confrontos domésticos. No passado, o truque resultou. Mas poderá ser aplicado, no futuro, a escolhas fundamentais? Será possível fazer passar essas escolhas invocando apenas uma maioria num qualquer conselho ou parlamento europeu, sem as legitimar no âmbito de cada uma das democracias nacionais? Se as nações, apesar das suas tradições e da densidade das relações entre os seus cidadãos, não tiveram sempre sucesso na contenção das fracturas e dissidências provocadas por opções mais controversas, tê-lo-á uma organização que, em termos históricos, nasceu ontem? Teremos muito mais conflitos, ou muito mais paralisia.



Quase tudo em história se constrói, mas é preciso tempo e não apenas vontade.
O projecto europeísta depende demasiadas vezes da ilusão de que seria possível corrigir séculos de história num ameno colóquio de dois dias em Bruxelas. Há questões de fé. E há questões de muita fé. Talvez desse jeito à UE ter um milagre para mostrar. Seria então mais fácil acreditar.


[Artigo de Rui Ramos no "Público" de quarta-feira]

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Paulo Pinto Mascarenhas | 01:07 | 3 comments

 

quinta-feira, março 01, 2007

 

Receita para fazer um político de sucesso

RUI RAMOS
(PÚBLICO 28.02.07)



Os romanos abriam pássaros para adivinhar o futuro. No que diz respeito ao futuro da nossa moda política, poderemos talvez trocar as entranhas das aves pelas campanhas eleitorais em curso na França e nos EUA. Uma coisa é certa: a receita dos candidatos que tiverem sucesso será geralmente copiada. Foi assim, nos seus tempos de glória, com Clinton e Blair. Há-de ser assim com Ségolène ou Sarkozy, ou com Hillary Clinton, Barack ou Giuliani. Valerá por isso a pena examinar desde já algumas tendências da culinária política na França e na América. Ajudará talvez aqueles que por aqui andem tentados por começar ou recomeçar uma ascensão política.


http://clinton.senate.gov/images/official_portrait_10_02.jpg


A primeira conclusão é reconfortante para os profissionais da política. Valores e projectos continuam a precisar de protagonistas com cara e biografia. E nada como um político devidamente amestrado para desempenhar o papel. É o que se deduz do menu de candidatos à escolha em França e na América. Os pratos mais fortes consistem todos em velhos tarimbeiros. A célebre “inexperiência” de Barack Obama assenta numa carreira política iniciada há onze anos. A “frescura” de Ségolène Royal é um fenómeno ainda mais notável. Resiste desde 1982, quando entrou no staff de Mitterrand.


http://www.telegraph.co.uk/news/graphics/2006/04/13/wfran13.jpg


Não há volta a dar: o primeiro truque da receita é, portanto, encontrar um político batido e sem ingenuidades. Depois, todavia, convém recorrer a tantas operações plásticas quanto as necessárias para, seja qual o for o seu cadastro, fazê-lo parecer fresco e inovador. Repare-se que até Sarkozy, depois de cinco anos no governo, reclama o papel de “challenger”. Aqui, o aspecto físico ajuda. O líder obeso, envelhecido, fumador e beberrão – digamos, Churchill – é hoje uma memória histórica. Mais do que ideias novas, importa uma cara nova. Pode ser injusto. Mas vem assim na receita.


http://www.illinoischannel.org/Senator%20Barack%20Obama.jpg


Quanto a convicções, a receita é complicada: é preciso metê-las no cozinhado, mas de modo que não ofendam o paladar de ninguém. Para isso, os melhores cozinheiros recomendam que se evite o doutrinarismo outrora atribuído a Thatcher. Todos se lembrarão como, há dois anos, Angela Merkel se deu mal com isso na Alemanha. O perigo é maior para os políticos de direita, onde ainda se acredita em “ismos” com bibliografia e programa. Os candidatos da esquerda, cujos partidos de governo há muito limparam os armários de qualquer vestígio de socialismo, estarão mais à vontade. O truque é preferir uma longa e variada lista de medidas a qualquer plano conciso e coerente. E acima de tudo, fazer da imprecisão uma prova de grandeza de alma. Barack é um bom exemplo. Propõe-se ultrapassar divisões e reconciliar os seus compatriotas. Como se o conflito, em política, resultasse apenas da incompreensão dos políticos, e não da incompatibilidade das opções. Daí que convenha ao candidato ideal, em qualquer tema, falar pelos dois lados e também contra os dois lados. Deve, por exemplo, comover-se com a “coesão”, mas ser igualmente veemente a propósito da “competitividade”. Aqui, a velha sebenta de sincretismo do professor Blair é ainda de aproveitar.


http://images.askmen.com/men/celeb_profiles_business_politics/pictures/tony_blair/tony_blair.jpg


Finalmente, talvez não seja necessário imitar o basismo de Ségolène, mas ficará bem ao candidato dar aos seus ouvintes a impressão de que só lhes está a falar porque, antes, os ouviu. Para reforçar esse efeito de identificação, dará jeito ao candidato ter uma história que faça do seu eventual sucesso, não apenas um triunfo pessoal, mas uma marca da vida nacional. Vir a ser, por exemplo, a primeira mulher na presidência, como Ségolène ou Hillary, ou o primeiro afro-americano, como Barak, ou qualquer coisa igualmente digna de um livro de recordes. Distrai a imprensa e dá aos apoiantes do candidato a sensação de que estão a fazer história.


http://park.org/UnitedStates/bill-portrait.gif

É óbvio que a receita não resolve todas as dificuldades. As duas maiores estão nas “máquinas”, isto é, nas estruturas capazes de enquadrar e mobilizar activistas e eleitores, e nas “grandes questões”, isto é, nos temas ditados pelo noticiário ou pela curiosidade da imprensa. Quem quer ganhar eleições não pode dispensar as primeiras, nem escapar às segundas. Ségolène estragou um pouco a sua imagem ao ter de saciar o velho esquerdismo do PS, e arranjar lugar para os seus marretas. Mas era o preço para poder contar com o partido. Nos EUA, Hillary Clinton não consegue sacudir a sombra iraquiana. A imprensa não lhe dará descanso por esse lado.


A imagem “http://www.syti.net/Images/Sarkozy_rageur.jpg” contém erros e não pode ser exibida.


A política, mesmo com as melhores receitas, não é fácil. Como Saturno, tem uma tendência para devorar os seus filhos. Talvez os aspirantes ao sucesso pudessem experimentar a ser um pouco menos digeríveis, mais duros. Mas há qualidades que não se fabricam. E no fim, há ainda a questão de Napoleão, que em relação a qualquer general, nunca perguntava se era bom, mas se tinha sorte.


Artigo de opinião publicado quarta-feira no jornal "Público"

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Paulo Pinto Mascarenhas | 01:30 | 3 comments

 

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

 

A OUTRA CRISE


RUI RAMOS

(PÚBLICO 20.02.07)
REEDIÇÃO DO AUTOR




Nos últimos meses, segundo o Banco de Portugal, a chamada “crise económica” atenuou-se. Mas basta ouvir os nossos governantes, dois anos depois da sua vitória eleitoral, para perceber que a outra crise, a da imaginação, continua. Em 2005, os ministros socialistas precisaram de umas semanas após a sua tomada de posse para descobrirem a “crise” que tinham negado quando na oposição. Não se devem ter arrependido dessa descoberta. Foi assim que arranjaram cobertura para aparar ligeiramente as unhas ao Estado Social. Mas foi assim também que relançaram o velho Estado Modernizador, com as suas proverbiais paixões da instrução e transportes. Toda a gente reparou no primeiro aspecto da biografia deste governo. Valerá a pena reparar também no segundo.



Nos últimos dois séculos, poucos governantes deste país deixaram de o declarar numa situação lastimável. O objectivo do diagnóstico foi, invariavelmente, o de tornar a governação imodesta. Em vez de pequenas emendas, os nossos líderes puderam propor revoluções messiânicas, destinadas a inspirar um novo canto nos Lusíadas. De facto, o resultado nem sempre foi exactamente a mudança, mas outra coisa: o engrandecimento imaginário das leis e despesas que a rotina, o interesse ou o sectarismo iam soprando aos governantes. Porque a tendência de fantasiar a pátria na mais vil prostração andou frequentemente a par da crença de que tudo poderia ser resolvido pela desassombrada assinatura de um ministro ao fundo de um projecto caro ou de uma lei “fracturante”. No século XIX e princípio do século XX, liberais, republicanos e também salazaristas, divididos por muitas coisas, acreditaram todavia numa mesma grande coisa: que o futuro do país estava à curta distância de uns quantos exames de instrução primária e de uns quantos quilómetros de estrada ou caminho de ferro. Com um par de leis “fracturantes”, era o que bastaria para elevar os portugueses à “modernidade” do norte da Europa.



Na segunda metade do século XX, o mundo mudou, e os portugueses puderam mudar com o mundo, aproveitando a procura de mão de obra e as deslocalizações nos estados mais ricos. Portugal começou a emitir os ruídos estatísticos de um país desenvolvido. Mas para a vida que os portugueses querem levar, precisavam de continuar a enriquecer. Os nossos governantes sentiram-se assim autorizados para tratar o país como carente de comando e aprovisionamento estatal. E os remédios não mudaram: estradas (agora auto-estradas), e instrução (agora ao nível do secundário e superior) continuaram a ser vistos como a chave do paraíso na terra.



Nos últimos vinte anos, este tratamento clássico produziu, entre outras coisas, 2300 km de auto-estradas, e um dos mais baixos números de alunos por professor na OCDE. Onde chegámos, assim? Segundo notou há umas semanas o professor Campos e Cunha, quanto mais aumentaram o número de professores e os quilómetros de auto-estradas, mais diminuiu a taxa de crescimento económico. Desde 2000, um país cada vez mais carregado de alcatrão e licenciaturas passou a progredir abaixo da média da zona Euro, que já é um dos conjuntos de estados que menos cresce no mundo. Entretanto, a factura do Estado Social e Desenvolvimentista gerou uma carga fiscal que, tanto ou mais do que a carência de qualificações ou de infra-estruturas, ameaça deprimir a competitividade do país. Se houvesse o hábito de estudar história, ter-se-ia reconhecido aqui uma repetição. Na segunda metade do século XIX, a expansão da rede escolar, que mal fez recuar o analfabetismo, e a construção de uma rede de caminho de ferro coincidiram com a quebra das taxas de crescimento. No fim, os gastos do Estado aprisionaram os portugueses numa crise financeira crónica, que os impediu de tentar aproveitar a chamada “primeira globalização”, a não ser através da emigração.



Alguém quer discutir alguma coisa? Talvez não. A verdade é que quando queremos salvar um país, convém-nos imaginá-lo a precisar de salvação. E quando só temos determinados meios para o salvar, convém também imaginar os problemas do país de modo a poder recomendar esses meios. Pensem num médico muito empenhado em salvar uma vida, mas que só dispõe, para esse fim, de um único medicamento, por exemplo, comprimidos indicados para afecções cardíacas. Aparece-lhe alguém a queixar-se de gripe. E o médico explica-lhe que sofre do coração, administra-lhe os comprimidos, e convence-se a si próprio e ao doente de que lhe salvou a vida. E umas vezes o doente melhora, e o médico reclama-lhe gratidão e glória. E outras vezes, não, e o médico ralha-lhe e decide redobrar a dose.


Artigo do "Público" de quarta-feira reeditado pelo autor para o blogue da revista Atlântico.

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Paulo Pinto Mascarenhas | 23:30 | 0 comments

 

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

 

Bem-vindos ao século XIX

RUI RAMOS
(PÚBLICO 14.02.07)



Sem dúvida que as esquerdas tiveram uma vitória no domingo. Resta saber que vitória foi. Para algumas dessas esquerdas – as que não gostam deste governo do PS – foi, provavelmente, uma vitória de Pirro. Como é que vão agora, sempre que Sócrates maltratar os funcionários, acusá-lo outra vez de não ser de esquerda? Na última semana da campanha, quando o “não” começou a pedir quartel, vimo-lo como o mais duro general do “sim”. Mas as esquerdas que detestam Sócrates sabem bem que, no fundo, ele não mudou. No momento do triunfo, ei-lo subitamente, para grande irritação das restantes esquerdas, a introduzir condições à “livre vontade” da mulher, sob o eufemismo de “reflexão” e “aconselhamento”.



Talvez algo tenha mudado no domingo, mas nunca será a revolução que uns desejavam e outros temiam.
E terá de ser assim por uma razão: é que o país, tal como Sócrates, pode ter mudado uma lei, mas também não mudou em si. Os entusiastas do “sim”, entretidos a celebrar o que alguns julgam ser a vitória póstuma de Afonso Costa, negam a realidade quando falam do “recuo do não” e reivindicam a representação de um “país moderno e progressivo”. Nada disso é verdade. Se o “sim” teve um milhão de votos a mais do que em 1998, o “não” também recolheu mais 200 000. E que conceito de “modernidade” e “progresso” autoriza a fazer dos concelhos mais rurais, envelhecidos e analfabetos do sul – aqueles em que o “sim” teve os melhores resultados
–, a vanguarda do “progresso” e da “modernidade”?



Para perceber a estranha mentalidade destes “sins” eufóricos, teremos de recuar ao século XIX. As esquerdas em Portugal acreditaram sempre que a “modernidade” estava destinada a consistir numa simples versão laicista da homogeneidade católica do Antigo Regime: onde antes todos eram “católicos”, todos um dia seriam “homens de esquerda” (inclusive as mulheres...). Foi o que aprenderam com Auguste Comte, Marx, Engels e outros mestres menores. Tal como a história antiga teria consistido na expansão da igreja cristã, o “progresso” haveria de significar o triunfo total do secularismo socialista, supostamente avalizado pela ciência moderna. As direitas apareceram sempre, no imaginário esquerdista, como uma espécie de índios americanos, condenados a desaparecer perante as iluminadas caravanas de pioneiros da esquerda. Foi assim que Afonso Costa, em 1910, se convenceu de que podia acabar com o catolicismo em “duas gerações”. O que aconteceu a seguir é conhecido. Mas pelos vistos, houve quem não tivesse aprendido nada. As esquerdas portuguesas dão-nos as boas vindas ao século XXI com as ideias e preconceitos do século XIX.



Se algo define a “modernidade”, não é o triunfo exclusivo desta ou daquela ideologia ou modo de vida, mas a institucionalização do pluralismo. O “não” de domingo não representa o Portugal antigo: é apenas a outra metade de um país que, ao longo da sua história, foi sempre fundamentalmente plural. Já houve quem, a propósito, lembrasse o mapa eleitoral de 1975. Mas há projecções geográficas mais antigas da diversidade política dos portugueses. A primeira que conheço é a do mapa do apoio das câmaras municipais ao governo liberal de 1822: lá está, em esboço, a separação entre o sul e o norte que viria a marcar a democracia a partir de 1975. Ao contrário do que diz a esquerda, nenhuma dessas metades do país é mais “moderna”, e ao contrário do que insinua alguma direita, nenhuma é mais “portuguesa”. Assim como as esquerdas não têm o monopólio do Portugal “moderno e progressivo”, também as direitas não possuem o exclusivo do Portugal “antigo e tradicional”. A base sócio-cultural que sustenta as esquerdas políticas é tão antiga como a que sustenta as direitas, e a base sócio-cultural de apoio das direitas revelou-se tão ou mais capaz de assumir a causa da modernização do que a das esquerdas. Basta pensar na história do país nos últimos trinta anos: quem é que principalmente lutou por uma democracia de tipo europeu ocidental em 1975-1980, e quem é que dirigiu a abertura da economia em 1985-1995? Ninguém, neste país, tem o privilégio do progresso e da democracia, ou das cidades e dos jovens. Por exemplo, nos distritos em que o “sim” ganhou, foi nos concelhos das capitais de distrito que o “não” obteve resultados acima da média: no sul, o “não” é urbano. Isto quer dizer apenas que as cidades são, em cada área cultural, mais heterogéneas do que o campo envolvente.



Em Identificação de um País (1986), José Mattoso explicou como esta pluralidade estava inscrita no código genético de Portugal. Pouca gente, pelos vistos, percebeu a lição. O que a modernidade fez em Portugal foi dar dimensão política a velhas fronteiras culturais. É significativo que tendo a sociedade portuguesa mudado tanto nos últimos quarenta anos, essas fronteiras tenham permanecido, independentemente das civilizações rurais com que andaram associadas. Aqueles que aspiraram a governar Portugal longamente e mais ou menos em sossego souberam sempre que, além do país que estava com eles, havia outro país que precisavam de ter em conta. Até os republicanos, no fim, procuraram corrigir o seu terrorismo laicista, com António José de Almeida a impor o barrete cardinalício ao núncio papal. Salazar, ao contrário do general Franco, nunca restaurou a monarquia e o catolicismo como religião de Estado. E Sócrates soube falar de “consenso” – para horror das esquerdas que gostariam de avançar para a “solução final” do “problema católico”.



Este país e o seu futuro não pertencem ao “sim”, nem ao “não”. Não entrámos na modernidade no domingo passado. Estamos nela há duzentos anos. O tempo suficiente para percebermos que nunca teremos todos as mesmas opiniões. Tirem portanto as pêras postiças à Afonso Costa, e portem-se como gente grande.


Artigo do "Público"de quarta-feira, revista pelo autor para o blogue da Atlântico.

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Paulo Pinto Mascarenhas | 02:58 | 0 comments

 


EDIÇÃO Nº 25

ABRIL 2007

...

A NOSSA REVOLUÇÃO DE ABRIL - A SÉRIO E A BRINCAR
por RUI RAMOS E 31 DA ARMADA

O MAIS IMPORTANTE AINDA ESTÁ POR FAZER!
por ANTÓNIO CARRAPATOSO

A VELHA EUROPA E A NOVA INTEGRAÇÃO EUROPEIA
por VÍTOR MARTINS

DOIS ANOS DEPOIS
por JOÃO MARQUES DE ALMEIDA, LUCIANO AMARAL e PAULO PINTO MASCARENHAS

COMO O ESTADO MATOU O COZINHEIRO ALEMÃO
por PAULO BARRIGA

O PACTO
por PEDRO BOUCHERIE MENDES

ERC

Inquérito Atlântico

Sem inquérito neste momento

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Web Este Blog

 

Rádio Europa

Descubra as Diferenças»

Um programa de opinião livre e contraditório onde o politicamente correcto é corrido a 4 vozes e nenhuma figura é poupada.

Com a (i)moderação de Antonieta Lopes da Costa e a presença permanente de Paulo Pinto Mascarenhas. Sexta às 19h10.

Com repetição Domingo às 11h00 e às 19h00.

 

Em Destaque

PORTUGAL PROFUNDO

O INOMINÁVEL

JAZZA-ME MUITO

 

Ligações Atlânticas

19 meses depois

31 da Armada

A Arte da Fuga

A Causa Foi Modificada

A Cooperativa

A cor das Avestruzes Modernas

A Esquina do Rio

A Invenção de Morel

[A Mão Invisível]

A Propósito de Nada

Arcebispo da Cantuária

Arrastão

A Sexta Coluna

A Vida em Deli

Acho Eu

Adufe

[Aforismos e Afins]

Aos 35

Alexandre Soares Silva

Aspirina B

[Aviz]

Axónios Gastos

Babugem

[Barnabé]

Bichos Carpinteiros

Blasfémias

[Blog de Esquerda]

Blogue dos Marretas

Blogzira

Bloguí­tica

Blue Lounge

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Causa Liberal

Causa Nossa

Cinco Dias

Complexidade&Contradição

Contra a Corrente

Corta-Fitas

[Crónicas Matinais]

Curioso

Da Literatura

Desesperada Esperança

Destaques a Amarelo

Devaneios

Diário de um quiosque

Diário da República

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Educação Sentimental

Elasticidade

elba everywhere

Esplanar

Estado Civil

Foguetabraze

[Fora do Mundo]

french kissin'

Futuro Presente

Galo Verde

Geraldo Sem Pavor

Glória Fácil

Grande Loja do Queijo Limiano

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Ilhas

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Jaquinzinhos

JPC I

JPC II

No Mundo

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